30 de outubro de 2010

Cuidado com o que se diz

Em tempo de eleições, quando ruas e praças exibem bandeiras, faixas, cartazes de candidatos e seus partidos, uma prática parece dominar o vocabulário das ruas: defender ou acusar aqueles que postulam a maioria nas urnas. Fico a observar a paixão com que alguns vestem a camisa deste ou daquele e se põem em combate pelas ruas, numa saudável campanha cívica. Até aqui, tudo muito democrático, enquanto se respeite a dignidade dos opositores.Uma campanha se faz pelo desejo de mudanças, pela vontade popular de se alcançar metas e ideais que favoreçam os anseios da maioria. Qualquer autoridade assim constituída possui o aval divino, mas, sobretudo, é mérito da esperança do povo. Esta é a grande avalista daquele que se elege. A autoridade não se compra para si. Nem se rouba. Paulo, o apóstolo, falando de sua própria autoridade, assim dizia: “Em verdade, não ousamos equiparar-nos, nem comparar-nos com alguns que se preconizam a si próprios” (II Cor 10,12). Como são numerosos os que assim agem! Políticos por profissão temos muitos; por vocação alguns.No entanto, ao povo cabe distingui-los dentre aqueles que hoje lhe pedem um voto. O mesmo Paulo ainda dizia: “Ora, quem se gloria, glorie-se no Senhor. Pois merece a aprovação não aquele que se recomende a si mesmo, mas aquele que o Senhor recomenda” ( II Cor 10, 17-18). O problema é descobri-los, separá-los do joio. O acerto do povo depende, em muito, da formação política, cultural e até religiosa que este possua. Eis o grande problema. Essa é a questão, o ponto de interrogação que nos preocupa. De Pelé, nosso grande esportista, um dia ouvimos: “O brasileiro não sabe votar!”. Foi massacrado pela imprensa, criticado por muitos, que não souberam entender a seriedade de sua afirmativa. Não a endosso, no entanto, posso reformulá-la: “Votar sabe; não sabe é discernir o que realmente seja melhor”! Estamos diante da parca visão comunitária de grande maioria de nossos eleitores. Vota-se pelo interesse pessoal, não comunitário. Vota-se pelos benefícios e favores que este ou aquele candidato possa conceder a esta ou aquela corporação, grupo social, religioso ou empresarial. Este é o grande perigo! Quando transito meu raciocínio neste campo, vem-me sempre um aviso interior: cuidado com o que vai dizer! É natural esse alerta? Não seria este um sinal de que ainda não vivemos em uma sociedade suficientemente amadurecida, politicamente adulta e democraticamente aberta para expormos com naturalidade aquilo que pensamos? Quem chegou até aqui, nesta leitura, o fez tentando adivinhar de que lado estou. Digo que fez uma leitura inteligente, como deve ser a leitura dos acontecimentos que nos rodeiam. Felicito-o pelo senso crítico. Assim deveria ser nossa análise política, a visão da própria história. É esse constante interrogar-se diante dos fatos e personagens, a mais sábia postura de um povo que constrói seu futuro. Meu lado é este. Meu candidato? Bem, cabe a mim o direito de não ovacioná-lo em público, quando o que aqui pretendo é provocar a consciência cívica de um dever. Quando o dever do voto vier acompanhado pelo direito da livre e consciente escolha, sem os penduricalhos da falsidade, da vaidade, da demagogia e dos jogos de interesse, ah!, então sim, estaremos na plenitude democrática. Por enquanto, sobra-nos o sonhar, o acreditar. Por enquanto, meçamos as palavras, para que não se venha a dizer, depois, que usamos da própria fé para promoção de fulano ou fulana. Pior ainda, para promoção pessoal. Ao povo compete a escolha do próprio destino. Aos que governam, a rédea dessa história. Fica, pois, um alerta oportuno: “Ai daqueles que fazem leis injustas, e dos escribas que redigem sentenças opressivas, para afastar os pobres dos tribunais e negar direitos aos fracos do meu povo” (Is 10,1-2). Ai daqueles que se elegem para governar... os próprios interesses!
(Fonte:www.catolicanet.com)