11 de janeiro de 2011

Fragilidade e autossuficiência

O ser humano carrega consigo as marcas da fragilidade, desde o momento de sua concepção até o instante final de sua existência terrestre. Essa realidade, mais do que uma consideração teórica, é uma constatação cotidiana, percebida por qualquer pessoa, diante de objetivos pretendidos e não atingidos, de metas traçadas e não alcançadas. Todavia, a fragilidade humana não é obstáculo para a busca de ideais e para a realização de aspirações humanas. A própria natureza é muito sábia e faz isso, de forma apropriada, como, por exemplo, a criação de vasos sanguíneos, em razão de determinada ausência ou obstrução de circulação no organismo. A história humana, construída com determinação, registra inúmeros exemplos de pessoas que, diante de situações peculiares, superaram obstáculos aparentemente instransponíveis. Nesses casos, os limites se tornaram razão suficiente para sua superação. Assim, embora seja um obstáculo para a maioria da população que vive em estado de extrema pobreza, individuos consiguem superar essa fragilidade social e galgam posições destacadas no mundo da arte, da ciência e da política.
Há, no entanto, outra expressão da limitação humana – a autossuficiência. O ser humano se julga centro de tudo, numa linha diferente daquela em que Deus o coloca, ao criá-lo, como se encontra no Gênesis: “ ‘Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem pelo chão’. Deus disse: ‘Eis que vos dou, sobre toda a terra, todas as árvores que produzem seu fruto com sua semente, para vos servirem de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a todos os animais que se movem pelo chão, eu lhes dou todos os vegetais para alimento’. E assim se fez.” (Gn 1,29-30) Dessa maneira, além de condizente com o plano de Deus, a capacidade inventiva da pessoa humana é uma linguagem expressiva do poder de dominar as coisas criadas. As conquistas da conhecimento humano, desde as empíricas descobertas dos primórdios até as mais recentes verificações científicas, são desdobramentos dessa capacidade investigativa e criativa que Deus colocou na personalidade do homem e da mulher.
Na verdade, não é fácil para o ser humano realizar, com equilíbrio, essa sua vocação, em sintonia com o plano de Deus. Com efeito, em muitos momentos da história, a sensação de autossuficiência está muito presente nas intervenções humanas. Isso está muito evidente, na Europa, no campo da ciência, da moral, da legislação e de políticas governamentais, a ponto de serem desconhecidas as raizes religiosas da população e desconsideradas as vivências morais de segmentos da sociedade cristã, em nome da laicismo contemporâneo. Essa nova ordem de coisas tem um peso maior na vida do povo do que o fenômeno do ateísmo que, em verdade, sempre existiu, porém limitando-se a concepções individuais e a práticas de grupos, sem afetar as liberdades de fé e de culto. De fato, muitos dispensam Deus em sua vida, como acontecia no tempo  do salmista:  “O insensato pensa: ‘Deus não existe’ ” (Sl 52,1) e também hoje:  “Mesmo se eu pudesse acreditar em D'us e religião, por que iria querer isso? A raça humana não pode tomar conta de si mesma?” Evidentemente, tudo isso tem consequência na vida das pessoas e da sociedade, especialmente quando, pelo poder e influência que exercem, individuos e instituições  dificultam a manifestação de fé em seu meio e lugar. Em sua autossuficiência, muitos seguem esse rumo, no mundo da comunicação e da administração pública, e o impõem a todos, num claro desrespeito às liberdades individuais e coletivas.
Sem dúvida, a fragilidade revela à pessoa humana a exata dimensão de seu ser, diante de Deus; de sua parte, a autossuficiência é uma distorcida leitura de sua condição, perante seus semelhantes.
Dom Genival Saraiva
Bispo de Palmares - PE