31 de março de 2011

Pe. Henrique Spitz: o hieratismo autêntico de um clérigo

      Por Márcio de Lima Dantas
    Professor de Literatura Portuguesa da UFRN, ensaísta e tradutor

Encontrar o Pe. Henrique Spitz era contemplar dois olhos de um azul puro, de um azul assim safira, de um azul da cor do céu sem nuvens com o sol alto, aquele azul de que se tinge o sertão durante a estação seca, azul que é mais azul devido o contraste com a caatinga áspera e cinza. Na verdade, o azul mais parecia uma metáfora desse homem, arrodeado por uma aura de espiritualidade e circunspecção. O azul é a cor do espírito, contrário ao amarelo, cor da carne e da matéria. No plano psíquico, ocupa o lugar da cor representante do pensamento. Pensamento que já arrastava no próprio étimo do sobrenome. Spitz, em alemão, quer dizer “agudo, penetrante, contundente.”
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Para além dessa dimensão evocadora das coisas relacionadas ao abstrato e a transcendência, anunciadas na calma e introspecção do azul, há sua presença física. Seria interessante se achegar um pouco à compleição física desse padre nascido no dia seis de outubro de 1903, em Duisburg, cidade alemã da Renânia-do-norte-Westafalia, primeiro porto fluvial do mundo,  localizado na confluência do Rhin com o rio Ruhr, importante centro metalúrgico, com cerca de 600 mil habitantes,  e que desde a infância se viu compelido por uma forte vocação à vida religiosa.
Diferente de religiosos com “jeito de padre”, ou seja, afetação negadora de virilidade, Pe. Henrique detinha na sua fisionomia geral um hieratismo masculino que muito lembra o Papa Pio XII, em sua pujança de homem sério e digno. Aquele olhar de quem apenas mexe os olhos, a cabeça permanece rigidamente no mesmo lugar. Postura tomada a partir de uma diferença estabelecida interiormente com relação ao outro, e que se manifesta numa espécie de comportamento no qual impera uma natural superioridade ética.
Alto e de constituição musculosa e masculina, bem apessoado, o rosto figurava ângulos retos e escorreitos. Apresentava-se sempre com a barba feita e emanando uma sensação de que tomara banho há pouco tempo. Voz firme e dicção exata do português, como se tivesse exercitado a fonética de maneira técnica, e não por meio de um aprendizado natural. Enfim, passava a impressão de uma rígida disciplina interna e externa.. Do corpo emanava aquela sensação de um auto-controle, fruto do disciplinamento natural dos seus ancestrais, associado ao controle incutido nos longos anos da severa disciplina do seminário. O autocontrole era tão ostensivo que talvez nunca tenha demonstrado nenhum laivo de fragilidade ou dúvida, qualquer que seja a natureza. Há quem conte um episódio de um romeiro que pôs os pés sobre um banco de madeira. O padre pediu para que ele retirasse o pé, como resposta, cinicamente retirou um e botou o outro. Padre Henrique mandou-lhe a mão na cara, fazendo-o cair por terra. Apenas acrescentou: “os bancos foram ali colocados para o repouso dos romeiros  e não para se botar os pés”. E o murro ficou dado.
Tendo sido educado praticamente em seminários, povoara-se desde cedo de um espírito religiosamente autêntico. Sim, nascera para ser padre. Não era de admirar seus estreitos laços com as coisas do sagrado. Parece que não tivera acesso a outra coisa. Da sua presença advinha uma afirmação nunca contestada por quem quer que seja: o seu castíssimo celibato. E não por ser assexuado, mas por uma fortíssima convicção de aceitar os dogmas impostos pela instituição a que estava   ligado, que nele parecia um sentimento vital. Severo com os dogmas católicos, não admitia padres não respeitadores do celibato. É conhecido os seus desafetos com alguns padres da Sagrada Família não obedientes aos votos.
Contrário à vida religiosa contemplativa e enclausurada, fora buscar uma espécie de vida que mais se coadunasse com suas disposições de espírito, com seus pendores fincados num temperamento de homem nascido para aa atividade, que fosse mais compatível com sua personalidade de homem que, embora preso ao abstrato das coisas do sagrado, gostava de ver o concreto edificado em pedras sobre pedras, comprazendo-se numa obra que o pudesse lançá-lo à eternidade na cabeça dos homens, não somente de Deus. Uma crença em Deus que não parecia restrita a uma fé ingênua e incondicional, mas o resultado de um aprofundamento na literatura de cunho religioso, mormente àquela teologia com fundamentação filosófica.
Tratava os objetos de culto de maneira extremamente solene. Ao passar, por exemplo, o lenço no cálice sujo de vinho, fazia-o com tal respeito que era possível divisar no gesto não um automatismo, mas parte integrante de um rito antiquíssimo. O celebrante encarnava o sopro do divino concretizando-se em atos de adoração e louvor. Honra e primazia para aquele que se encontrava de costas para o altar-mor. Ele sabia muito bem disso. Até parece que conhecia o valor dos gestos dramáticos vinculados ao teatro.
Seu andar era aprumado, de quem se desloca com equilíbrio nos seus indefectíveis sapatos pretos, sempre impecavelmente engraxados; passadas fortes de quem gosta de sentir o firme do chão, de quem não tem telhado de vidro, nada temendo, pois, no fundo, sabia, muito bem agir sem deixar brechas ou flancos para que outrem o apontasse como contraditório ou hipócrita. Ao caminhar pelas quentes ruas da cidade de Patu, seu vulto contornava um discurso que anunciava “nada dever a seu ninguém”, pois detinha aquele ar dos homens que tem como causa do sono o cansaço das tarefas, e as responsabilidades do dia outorgam o necessário descanso reparador.
Olhar resoluto de quem encara o interlocutor e não deixa dúvida sobre a autenticidade do que esta falando. Sincero, quando pronunciava um “sim” não havia por que o interlocutor insistir em dissuadi-lo da sua posição, tomada que fora a partir de um raciocínio límpido e ligeiro de típico teutônico. Parecia primar por essa reputação de “homem de palavra” e sem embustes. Com certeza se regia por determinados princípios límpidos e bem definidos. A formação sacerdótica encontrou um sólido substrato possibilitador à realização de uma vida religiosa ilibada. Preso a um tempo e a uma cultura na qual a palavra ainda resguardava um valor, talvez sofresse um pouco com a flexibilidade dos costumes e com a distância entre a palavra e as ações, tão peculiar às gentes do Brasil.
Sabe aquele tipo de pessoa que quando está  presente a um agrupamento de indivíduos  o rumo da conversa  e o comportamento dos homens são completamente alterados? Então. É que sua presença impunha uma gravidade que obrigava ao semelhante acionar suas reservas de seriedade ou de hipocrisia. Era quase impossível permanecer natural diante dele. A tendência era reafirmar tudo o que ele proferia, seja de caráter religioso ou mundano. Óbvio que tudo voltava ao que era antes, quando o alemão dava as costas. Em suma, o que quero dizer é muito simples, é que a presença de Pe. Henrique despertava lembranças inconscientes de sermos mais autênticos como pessoas, de sermos menos a máscara requerida pelas normas sociais, de sermos nós mesmos.
Arrisco uma interpretação sobre Pe. Henrique. Penso que ele se sentia o próprio herói civilizador das terras bárbaras e quentes do sertão. O ariano de pura raça branca trazendo a fé e os hábitos civilizados aos confins do interior do país. Sempre foi intolerante com a generalizada falta de educação de uma população pouco afeita às regras sociais básicas do convívio grupal, sempre foi intrigado com a ausência de disciplina e o descompromisso generalizado, e o pior: as coisas sagradas entendidas como dissociadas da realidade cotidiana; os sacramentos são interpretados como desculpas para a realização do espetáculo, da festa e da ostentação diante do outro. Definitivamente morreria sem compreender os hábitos bizarros desses mestiços descendentes de portugueses, praticantes de um catolicismo bem diferente do que estava acostumado na sua terra natal. E se considerava como o detentor de uma diferença, não havia por que deixar nódoas na sua batina.
Autoral e autoritário, enquanto esteve vivo, o Santuário do Lima, situado num dos contrafortes da serra de Patu, cujo orago é Na. Sra. dos Impossíveis, permaneceu sob sua tutela, controlando a tudo e a todos. Sabia muito bem que as coisas nos trópicos só funcionam sob a batuta de uma voz firme que cuspa autoridade na cara do outro. A língua deve funcionar como um chicote, disseminando ordens e ameaças. Pe. Henrique conhecera desde cedo como funcionava a cabeça dessas populações. E era assim que se comportava: o feitor das coisas sagradas impunha pelo levar tudo a sério a diferença incomensurável entre sua subjetividade e a população mestiça do sertão.
Honesto em tudo o que dizia respeito aos seus hábitos, costumava pagar pontualmente a previdência dos funcionários do Santuário do Lima. Tão sistemático e organizado era que as cédulas recebidas dos romeiros como esmola eram engomadas, antes de serem encaminhadas ao banco para o depósito. Havia uma espécie de mística em tudo o que praticava, assim assemelhada ao zen-budismo, cujo atitude é de não se explicar, mas de se exprimir sem maiores explicações, deixando entrever, em todo ato ou palavra uma espécie de temperança lançando fronteiras a uma sintonia com o seu entorno e com o cosmos.
Engenheiro de formação,  pe. Henrique tinha a obsessão pelo construir. Deixou quatro grandes obras: a catedral de Sant’Ângelo, no Rio Grande do Sul; o Seminário do Crato; o seminário da Sagrada Família, no bairro Barro, do Recife e, finalmente, a obra que lhe deu mais trabalho: a reforma geral e do Santuário do Lima. No tempo em que transporte era coisa difícil, ele ia ao Recife numa moto preta, depois adquiriu uma C-10 azul. Suas muitas idas à capital de Pernambuco, se devia ao fato de lá se encontrar a sede regional da sua congregação: a Sagrada Família.  Costumava ir ao Recife buscar o dinheiro das ordens de pagamento vindas da Alemanha, assim como o dinheiro mandado por sua família para ajudar nas obras empreitadas.
Poucas vezes a vocação sacerdotal  se manifestou com tanta eloquência e autenticidade. Ele parecia ter a exata consciência desse atributo e da necessida de ritualizá-lo no cotidiano, desde a celebração de rituais religiosos até o contato com os transeuntes da pequena cidade do alto oeste norte-rio-grandense. Por sua voz, inferimos o que se passava no seu interior : fala pausada de a quem o pensamento submete à razão antes de proferir uma sentença.
As últimas fotos do reverendo Spitz mostram um homem alquebrado e consciente de que o seu fim estava próximo. Aparentava aquele semblante de quem tem a exata consciência do mal que padece, e que não terá muito mais tempo de vida, contudo,  não se escusou de cumprir seus deveres sacerdotais até os últimos momentos, tanto é que há um retrato de um batizado de uma neta de Chiquinha de Valdemar, o administrador do Santuário. Com certeza, deixou tudo encaminhado, arrumado, antes de morrer. Hoje encontra-se sepultado num dos jardins laterais do templo. Muito tempo antes, já havia mandado confeccionar a enorme lápide cinza, de granito bruto, encimada por uma cruz em alto-relevo. Sepulcro austero para um hierático e autêntico clérigo.

Fonte: Blog do Márlio Forte