3 de fevereiro de 2013

As utopias da Bíblia

Dom Redovino Rizzardo
Bispo de Dourados (MS)
Para Nietsche, do começo ao fim, a Bíblia não passa de uma coletânea de promessas não cumpridas. Eis um exemplo entre centenas de outros: «Criarei novos céus e nova terra. Dores passadas serão esquecidas, não voltarão mais à memória. Ao contrário, haverá alegria e exultação sem fim por tudo o que vou criar. Farei de Jerusalém a cidade da exultação e um povo cheio de alegria. Ali nunca mais se ouvirá a voz do pranto e o grito de dor. Ali não haverá crianças condenadas a poucos dias de vida, nem anciãos que não completem seus dias. Será considerado jovem quem morrer aos cem anos; e quem não alcançar cem anos, passará por maldito. Então acontecerá que, antes que me chamem, lhes responderei; ainda estarão falando e eu os atenderei. O lobo e o cordeiro pastarão juntos; assim como o boi, o leão também comerá palha. Não haverá dano nem morte em todo o meu santo monte» (Is. 65, 17-20.24-25).
Para quem olha as coisas superficialmente, Nietsche tem razão. O que se constata no mundo é o contrário do que sonhava Isaías e, com ele, dezenas de outros profetas que surgiram na face da terra prometendo paraísos terrestres. A começar da própria Jerusalém, dividida entre judeus e palestinos, o que hoje se vê em toda a parte é ganância, violência, injustiça e opressão. Aliás, já São Pedro previa que esta seria a reação normal de muita gente: «Nos últimos dias, surgirão pessoas que zombarão de tudo e se comportarão ao sabor de seus instintos, dizendo: “Não deu em nada a promessa de sua vinda. Desde que os nossos primeiros pais morreram, tudo continua como sempre, desde o princípio da criação”» (2Pd 3,4).
Para não nos enganarmos em assunto tão importante, é preciso ter presente a finalidade por que foi escrita a Bíblia. Foi o que São Paulo explicou em duas ocasiões. Primeiramente, na Carta aos Romanos: «Tudo o que foi escrito antes de nós o foi para a nossa instrução, para que, através da perseverança e da consolação que as Escrituras nos dão, mantenhamos viva a esperança» (Rm 15,4). A segunda, na Carta a Timóteo: «Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, corrigir, encaminhar e educar na justiça, a fim de formar e capacitar o homem de Deus para todo tipo de boas obras» (2Tm 3,16-17).
Portanto, seu objetivo não é de ser um manual de história da humanidade – nem mesmo do povo de Israel – e muito menos um livro de ciências naturais. Todas as vezes que alguém teve essa pretensão, quem ficou prejudicada foi a própria fé. De acordo com uma sentença atribuída a Galileu, «o que a Bíblia ensina não é como se formaram o céu e a terra, mas como da terra se vai para o céu».
Voltando ao texto de Isaías, devemos, então, admitir que ele também se equivocou ao fazer a sua profecia? A resposta seria afirmativa se pudéssemos inseri-lo no rol dos “messias” que, ao longo dos séculos, prometeram trazer o céu à terra. Até santos, como Tomás More – sem falar do Nazismo de Hitler e do Socialismo de Lenin – pensaram possível essa “utopia”, esquecendo que – como escreveu K. Popper – «a tentativa de criar o reino do céu na terra pode facilmente transformar a terra num inferno para todos».
Com isso, não se quer dizer que se deva ficar de braços cruzados, aceitando todos os males como vontade de Deus. Muito pelo contrário, por ser amor, o que Deus quer é o bem e a felicidade de seus filhos. Mas, «o Deus que te criou sem pedir a tua ajuda, nada fará sem a tua colaboração», ensinava Santo Agostinho. Caminhando e trabalhando juntos, Deus e o homem, é que se constrói o mundo que ambos desejam. Se um dos dois se omite, nada acontece. Pior ainda quando o homem tenta construir a história sem Deus. É então que se verifica o que disse Jesus: «Quem não recolhe comigo, dispersa» (Mt 12,30).
Por tudo isso, a melhor conclusão é a que chegou o Concílio Vaticano II, em 1965: «A esperança de uma nova terra, longe de atenuar, deve antes impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. Nela cresce o Corpo da nova família humana, que já pode apresentar algum esboço do mundo futuro. Por isso, ainda que o progresso terreno deva ser cuidadosamente distinguido do crescimento do Reino de Cristo, contudo é de grande interesse para o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para organizar a sociedade humana.
Fonte: CNBB