22 de abril de 2013

Como barro nas mãos do oleiro

No dia 8 de setembro de 1865 o Pe. João Berthier concluía seu noviciado e fazia sua profissão religiosa como Missionário de Nossa Senhora da Salette. Os propósitos pessoais que registrou por ocasião do retiro de preparação aos votos são um testemunho precioso da sua compreensão de vida consagrada. Berthier entende a vida consagrada como um caminho de crescimento e santificação que só pode ser  percorrido com a ajuda e orientação de pessoas maduras e qualificadas. Escreve explicitamente que “quem pretende ser guia de si mesmo se confia em mãos insensatas” e por isso se propõe a manter-se sempre aberto aos superiores e orientadores espirituais. 
Esse é também o núcleo teológico de sua compreensão de obediência. Ela não é simplesmente uma atitude mecânica e externa de submissão aos seuperiores, mas uma atitude de abertura que nasce e se alimenta no amor pessoal a Deus e na relação com ele, valor que deve ser buscado e exercitado mediante a oração,. “Como não posso ser obediente sem amar a Deus, me esforçarei para fomentar em mim o espírito de submissão mediante o espírito de oração.”
A oração lhe parece meio e caminho indispensável para crescimento, que ele chama de santificação, e está intimamente relacionada com o reclhimento, que é o contrário da dispersão e da exterioridade. “A oração é o meio mais eficaz para a própria santificação... Minha salvação depende da oração constante, e isso supõe recolhimento. Por isso amarei minha cela e guardarei o silêncio tanto quanto possível.” A oração é caminho eficaz para a santificação porque supõe e cultiva o diálogo e a abertura à vontade de Deus.
Mas para Berthier a oração é também o clima e o horizonte indispensável para que a missão produza frutos. Nas suas próprias palavras,  é “a ajuda mais forte na conversão dos pecadores e na salvação das almas.”  Por isso se propõe: “Em vista da oração deixarei de lado outros trabalhos, mesmo os que parecem importantes. Antes de subir ao púlpito, rezarei com ardor e me convencerei plenamente de que sozinho sou incapaz de fazer o bem das almas.”
Consolidando a consciência dos próprios limites e da absoluta dependência da graça de Deus, a oração é também um remédio eficaz contra o orgulho.“Depois da meditação, renovarei sempre meu propósito de lutar contra o orgulho... O orgulho é sinal de desordem e só provoca confusão. A verdadeira honra é se assemelhar a ti pela humildade!” Para Berthier,  Jesus Cristo revela Deus mais pela humildade e compaixão que pelo poder.
Berthier sublinha sua condição de pobre diante de Deus, a humildade em seu sentido teológico e em sua força regeneradora: “Senhor, tu és o criador e nós somos apenas o barro. Tuas mãos me fizeram e me deram forma. Não tenho nada que me pertence a não ser o pecado... Não mereço ser honrado por aquilo que recebi de ti.” Essa convicção de que o bem que ele faz é ação da graça de Deus  não é auto-desprezo, mas consciência da finitude humana e reconhecimento da bondade e gratuidade de Deus.
Nessa perspectiva escreve: “Pois não é verdade que nos louvam por supostos méritos que, aos teus olhos, não passam de iniqüidades? Com maior razão, nunca fomentarei elogios dirigidos a mim, jamais farei nada que tenha origem no amor próprio e não direi uma única palavra para louvar a mim mesmo.” E conclui com palavras profundamente evangélicas: “Que paz encontramos quando nos colocamos nos últimos lugares e amamos a humilhação!”
Dessa humildade de ser e disponibilidade total à graça de Deus brota o amor e o serviço aos humildes e pobres, essenciais à vida consagrada. “Concede-me, Senhor, que eu exerça o serviço que me confiaste com dedicação,sobretudo aos pequenos e pobres. E que eu faça isso por amor a ti, pois quiseste fazer-te pobre e pequeno para nossa salvação. E para edificar-nos, escolheste os pobres, os fracos e insignificantes, e deixaste as crianças se aproximarem de ti. Meu Deus, quanta paz experimenta quem serve os pobres!”
Pe. Itacir Brassiani msf